"Não quero ser um móvel num imóvel,Quero firme e discreto o meu amor,
Meu gesto seja sempre natural,
Mesmo brusco ou pesado,
E só me punja a saudade da pátria imaginária."
"Os caminhos do amor, só amor sabe trilhá-los."
-Carlos Drummond de Andrade

Já faz algum tempo que acordo sempre pensando em alguém, mas hoje foi de uma forma diferente. Não foram pensamentos vagos e impossíveis como sempre, e sim uma saudade enorme misturada com lembraças boas. Sabe quando a gente gosta tanto de alguém que sente aquele aperto no peito? É isso que tenho sentido - não de uma forma sufocante, mas de forma morna, aconchegante. Pelo menos desde hoje tem sido assim. Já tinha esquecido o quanto é bom gostar de verdade e não ter vergonha de dizer; o quanto é gostoso olhar nos olhos de alguém e saber que esse alguém pensa em você.



mãos dele uma razão para permanecer deitada. Ele não estava ali. Ela nada encontrou ao passar
a mão no outro lado da cama de casal. Estava só. Não teria o sorriso dele naquela manhã fria, sendo que o único rosto que viu foi o da sua própria imagem refletida no espelho.
Estou cheia de você atrás de mim o tempo todo. Fica se fazendo de fofa, enquanto, pelas minhas costas, chama a atenção de todo mundo para meus defeitos.
Você está redondamente enganada se pensa que eu vou me rebaixar ao seu nível – o que vem de baixo não me atinge. Mas faço questão de desancar essa sua pose empinada.
Por que nunca
encara as coisas de frente?
Fica parecendo que
tem algo a esconder. Por
acaso, faz alguma
coisa que ninguém
pode saber?
Você é, e sempre foi, um peso na minha existência – cada papel que me fez passar... Diz-se sensível e profunda, mas está sempre voltada para aquilo que já aconteceu. Tenho vergonha de apresentar você às pessoas, sabia?
Por que você nunca encara as coisas de frente, bunda? Fica parecendo que, no fundo, tem algo a esconder. Por acaso, faz alguma coisa que ninguém pode saber? O que há por trás de todo esse silêncio?
Você diz que está dividida e que eu preciso ver os dois lados da questão. Ora, seja mais firme, deixe de balançar nas suas posições.
Longe de mim querer me meter na sua vida privada, mas a impressão que dá é que você não se enxerga. Porque está longe de ter nascido virada para a lua e costuma se comportar como se fosse o centro das atenções.
Bunda, você mora de fundos, num lugar abafado. Nunca sai para dar uma volta, nunca toma um sol, nunca respira um ar puro. Vive enfurnada, sem o mínimo contato com a natureza. O máximo que se permite é aparecer numa praia de vez em quando, toda branquela.
Não é de admirar que esteja sempre por baixo. Tentei levar você para fazer ginástica, querendo deixar você mais para cima, mas fingiu que não escutou.
Saiba que você não é mais aquela, diria até que anda meio caída. E vai ter que rebolar para mexer comigo, de novo, da maneira que mexia.
Lembro do tempo em que eu, desbundada, sonhava em ter um pouquinho mais de você. Agora, acho que o que temos já está de bom tamanho. E, pensando bem, é melhor pararmos por aqui antes que uma de nós acabe machucada.
Sei que qualquer coisinha deixa você balançada, então não vou expor suas duas faces em público. Mas fique sabendo que, se você aparecer, constrangendo-me diante de outras pessoas, levarei seu caso ao doutor Albuquerque*.
Lamento, isso dói mais em mim do que em você, mas você merece o chute que estou lhe dando. Duplamente decepcionada,
* A colunista refere-se ao cirurgião plástico Pedro Albuquerque, de São Paulo
Fernanda Young é escritora, roteirista e apresentadora de TV
A respeito do ano novo, uma amiga me falou: Pra quê comemorar, se é só o recomeço de datas normais?